Coisas de casal


por Márcio Silva

- Já está pronta, Adriana?
- Quase, amor!
- Tudo bem, eu vou tirando o carro da garagem.
- Pedro, você viu a minha bols… meu Deus no Céu!
- O que foi, linda?
- Você não vai assim ao cinema, vai?
- Vou, ué. O que tem demais?
- O seu cinto é preto.
- Sim, e …?
- E os sapatos são marrons.
- E daí?
- E daí que não combinam!
- Ok, Adriana… não tem problema, eu coloco a camisa para fora da calça e o problema acaba, viu? Ninguém vai saber que meu sapato e meu cinto não combinam, ok? Vamos embora.
- Mas eu sei! Eu sei! Amor, troca.
- Trocar o quê?
- Os sapatos ou o cinto. Ou eu não vou ao cinema.
- Ou você não vai ao cinema?
- Não vou.
- Só porque o cinto e os sapatos não estão combinando.
- Exatamente.
- Tudo bem. Então agora eu que não saio mais consigo até você pintar o cabelo de preto.
- Hein? Surtou, Pedro?
- Adriana, esse seu cabelo louro não combina.
- Ficou maluco? O que não combina?
- As suas cortinas não combinam com o seu tapete, Adriana.
- PEDRO!!!
- Ninguém mais vê, mas eu sei. Eu sei!
-…
- E então?
- Tira logo esse carro da garagem antes que a gente perca o filme, Pedro.

Fermatas


por Márcio Silva

- Professor?
- Sim? Ah, olá… é Alice, certo?
- Sim, olá. O senhor tem um minuto?
- Claro. Em que posso ajudar?
- Professor, eu preciso conversar com o senhor sobre a minha nota.
- Ok, ok… está com a prova aí?
- Sim, está aqui. O problema é que…
- Hmmm… eu não vejo problema algum. Sua nota está correta, Alice.
- … eu não entendi essa nota que o senhor me deu.
- Como assim “não entendi”?
- Desculpe, mas eu realmente não entendi a nota que o senhor me deu, professor.
- Eu não entendo como você não entende, Alice. Sua nota é o percentual de acertos das questões da prova.
- Eu sei, professor… é que…
- Aqui, quando eu pedi para você me citar 3 instrumentos sinfônicos de corda e você respondeu “violino”, “viola” e “violoncelo”, acertou toda a questão.
- Tudo bem, professor. O lance é que…
- E aqui, quando eu perguntei qual era o nome dado ao sexto grau de uma progressão harmônica, você colocou “sensível”, mas o correto seria “superdominante”.
- Professor!!!
- …
- Eu entendo o conceito da pontuação de uma prova. E eu entenderia se a nota que o senhor me desse fosse um 0 ou um 10, mas o senhor desenhou uma semínima pontuada na minha prova. É isso que eu não entendo, professor.
- Acho que você precisa estudar mais teoria musical, Alice. Tenha um bom dia.

Consultório do Dr. Osório


por Márcio Silva

- O próximo!
- Bom dia, doutor.
- Ah, Sr. Villas… sente-se, por favor. Eu já estou com o resultado dos seus exames.
- E então, doutor?
- Eu vou lhe ser sincero, Sr. Villas… o resultado é bem preocupante. Não é fácil dizer isso, Sr. Villas, mas o senhor sofre de licantropia.
- …
- A boa notícia é que existe tratamento.
-… licantropia?
- Eu sei, os casos de licantropia são raríssimos, mas infelizmente, ainda existem registros.
- … de licantropia?
- Sim, senhor. Inclusive no ano passado foi registrado um no interior do Pará. Mas, como eu dizia, existe tratamento.
- … licantropia? O senhor tem certeza que eu sofro de licantropia?
- Sr. Villas, eu entendo o que o senhor está passando por um momento complicado, mas o senhor foi diagnosticado com licantropia não apenas por mim, um colega meu confirmou o diagnóstico.
- Licantropia é a maldição do lobisomem, doutor! Quem mais seria maluco de confirmar um diagnóstico absurdo desses?
- Absurda é essa sua atitude de questionar o meu diagnóstico! Fique o senhor sabendo, Sr. Villas, que eu exerço medicina faz trinta anos. E saiba também que o meu colega, o Pai Totonho de Campinho é um profissional do mais alto gabarito!
- …
- Bom, o importante é que eu tenho aqui comigo o tratamento, o senhor vai querer ou não?
- Doutor… abaixa essa arma, por favor…
- Sr. Villas, o senhor tem licantropia e o único jeito de curar licantropia é com balas de prata.
- Olha… calma, doutor. Vamos conversar… não tem outro remédio?
- Infelizmente o genérico está em falta…

Sob a pena da pena


por Márcio Silva

A pálida luz que tremia sobre a entrada do beco morreu quando Max Porter jogou a guimba do cigarro em uma poça d’água, antes de esgueirar-se viela adentro. Chovia o suficiente para abafar o barulho de seus passos, mas a chuva e o barulho eram a menor de suas preocupações: era hoje o dia do acerto de contas. Parou atrás de uma caçamba de lixo e observou a porta dos fundos do Havana Club se abrir e seu proprietário, o empresário Wilson Creed, sair sozinho em seu impecável smoking branco, abrir despreocupadamente o guarda-chuva e caminhar na direção de um sedan azul-marinho estacionado em frente à porta. A mão direita de Porter alcançou o cabo da pistola e o apertou com força. Aquela era a hora do acerto de contas. Porter saiu de trás da caçamba e, com a arma em punho, rendeu o empresário.

- Parado aí, Creed. Temos algumas contas a acertar.

Wilson Creed parou e levantou a mão livre, em sinal de rendição. O sorriso de Porter se abriu: teria enfim sua vingança, assistiria sua arma cuspir chumbo quente contra o corpo do homem que lhe custou dez anos na prisão e, depois que o corpo de Creed estivesse estirado sem vida sobre o chão do beco, enfim poderia beijar pela última vez seus lábios.

- Prepare-se para morrer, Creed. É hora de você… ei, ei, ei! Dá para repetir a última frase?

(…) enfim poderia beijar pela última vez seus lábios.

- Desculpa, mas isso não vai acontecer. Por que eu tenho que beijá-lo?

Porque é o que está no roteiro.

- Então faça o favor de reescrever o roteiro, porque eu não vou beijar esse cara. Para início de conversa, isso tudo não faz o menor sentido: eu chego aqui no beco querendo encher o sujeito de chumbo porque ele me fez passar dez anos na cadeia e no final eu beijo ele na boca?

Bom, muitos homens se descobrem gays após longos períodos na prisão.

- O quê? Você está falando sério? Muitos homens são estuprados nas prisões, isso sim.

Você quer dizer que ninguém pode se descobrir na prisão sem que haja violência sexual? Ninguém tem revelações sobre sua própria vida na cadeia?

- Não estou dizendo isso… mas também não é esse o caso. O caso é que eu não vou beijar esse sujeito!

Posso saber por que não?

- Porque não, ué.

Ué, uma explicação têm que ter.

- Que tal esta: eu não quero beijar o sujeito?

Mas é só uma cena!

- Ah, é só uma cena? Então por que você não vem até aqui e termina a cena para mim?

Eu não posso ir até aí, eu sou o narrador.

- Ah, sei…

O que você quer dizer com isso?

- Eu quero dizer que você é um hipócrita. É muito fácil mandar os outros beijarem o sujeito no beco, mas você mesmo não beijaria o cara.

Você está distorcendo as minhas palavras… podemos continuar com o texto?

- Claro que não. Eu não continuo enquanto você não admitir que não beijaria o… Creed, é esse o nome dele não? Sim, é sim. Então… eu não continuo enquanto você não admitir que não beijaria o Creed e enquanto não alterar o final da cena.

Eu não tenho que admitir nada. Eu sou o narrador, a minha função é esta e eu a estou cumprindo, ao passo que você, que deveria ter beijado o Creed para que o texto continuasse, não está cumprindo o seu papel. Você não é profissional.

- Eu não sou profissional? Eu não sou profissional? Eu estou aqui num beco mal iluminado, debaixo de chuva e porque eu me recuso a beijar um cara pelo fato de eu não ver nexo nesse ponto da trama, enquanto você tenta se agarrar na sua desculpinha esfarrapada de “eu sou o narrador” e não quer admitir que você também não beijaria esse sujeito aqui com esse terninho cafona…

- Que foi? Vai ficar mudinho agora? Não vai mais falar comigo?

- Vai me dar tratamento de silêncio? Depois eu que não sou profissional. Você é um crianção.

Porter abre seu sobretudo, revelando-se vestido de corpete, cinta-liga e meia-calça arrastão vermelhos, e começa a rebolar em volta de Creed.

- Ei, ei, ei… pára com isso, rapaz!

Ué, você não quer mudar a cena? Pois eu estou mudando a cena. Seja feita a vossa vontade.

- Escuta aqui, rapaz: você quer resolver isso no braço?

Eu? Brigar com você?

- Desce aqui e a gente resolve isso.

Eu não vou descer até aí.

- Mariquinha…

Não me chame de mariquinha!

- Mariquinha! Mariquinha! O narrador é um maricas.

Pára de me chamar assim. Eu não sou maricas!

- É um maricão, isso sim! Mariquinha, Maricota! Vai chorar, seu maricas?

Pára… de… me… pára…

- Err… você está chorando mesmo? É sério isso?

Não… eu não estou chorando. São as minhas alergias…

- Rapaz, também não precisa chorar, eu só estava…

Só estava atrapalhando o meu trabalho! Eu não escrevi o texto, eu sou apenas o narrador. E ainda tenho que aturar essa… humilhação? Ser chamado publicamente de mariquinha? Eu não tenho culpa de nada, eu sou apenas o narrador. Se eu pudesse, eu mudava a cena, mas eu não posso! Eu só leio o que está escrito.

- Ok, ok, eu peço desculpas. Você não é mariquinha.

Mesmo?

- Mesmo.

Obrigado. Podemos continuar com o trabalho?

- Tudo bem, tudo bem… já que não foi você quem escreveu esse texto, não pode modificar e eu preciso mesmo da grana, vamos lá… deixe-me ler a cena de novo. Ok, a arma cospe chumbo, vamos lá e… pronto, Creed está morto. Agora o corpo dele está jogado no chão do beco, seja o que Deus quiser… pronto, está beijado. E agora?

A vingança de Porter estava concluída, mas ele ainda precisava correr para alcançar sua amada Jane Lee antes que o último trem partisse… eu não posso ler isso. É clichê demais!

- Ei, ei, ei! Como assim? Vai terminar de ler sim, senhor! Eu acabei de beijar um cara, por que você não vai ler o texto?

Depois dessa cena, o texto vira um amontoado de lixo! Clichê em cima de clichê! Eu me recuso a tomar parte disso!

- Ah, você se recusa, seu mariquinhas? Eu vou aí na cabine e eu quero ver você não ler esse texto!

Não me chame de mariquinhas!


por Lili Belotti

Me ensina a esquecer que um dia gostei de você…

Que fiz planos e tive sonhos…

Me ensina a viver fora do conto de fadas…

Acordei e não quero mais dormir…não quero sonhar!

 

 

 

Cir/cu/s II


por vulgodudu

Desde o dia em que virei trapezista eu não durmo mais em paz. Sonho com planícies, chão de paralelepípedos, declives acentuados, asfalto esburacado, escada rolante de shopping center para baixo, lona, tábua de passar roupas, cama de pregos, Isaac Newton e você, minha esposa e assistente de mágico, ilusória, montada em cima de mim, desaparecendo de uma vez após um breve orgasmo.

Nonsense


por Márcio Silva

A banda alemã Dunkle Macht (1980-1982) é considerada, por muitos estudiosos do rock ‘n’roll, uma das mais revolucionárias de todos os tempos. O quarteto, formado por Andreas Kuttner, Karl Göbber, Maik Üller e Sven Klauswassen, surpreendeu o cenário underground de Berlim Ocidental com seu som ultrapesado e sua formação, completamente fora dos padrões do heavy metal oitentista: Andreas no bombardão, Karl no trombone de vara, Maik nos saxofones alto e soprano e Sven no vocal e no flautim. O som do Dunkle Macht foi batizado pela mídia como schlag metall (metal de sopro) e tinha tudo para dar certo, mas infelizmente a carreira promissora do grupo foi interrompida por um grupo de skinheads, que espancou o quarteto até a morte no camarim da boite Große Wurst, logo após sua primeira e única apresentação. Os poucos fãs do Dunkle Macht ainda visitam o pequeno monumento erguido em homenagem à banda na Potsdamer Platz e lá depositam flores e instrumentos de sopro, no aniversário da tragédia.


por Lili Belotti

sobe. desce. ama. mata. morre. fuma. bebe. come. dorme. levanta. cai. chora. ri. canta. ouve. música. bela. poesia. sente. cheira. escreve. CANSA!

O Piano


por annaleticia

 Se puder, ouça essa música antes ou durante a leitura. http://www.goear.com/listen.php?v=33f53d3

Doce solidão, ela tem mãos preciosas
que iluminam as composições dedilhadas
Receio que o pianista toca como escrevemos
Fazendo com que luzes de sua nova canção
Misturem-se à escuridão da noite solitária
Fabricando muitos sonhos de amor e paz
o pianista trabalha sem dormir ao tentar
Solucionar todos os problemas do mundo
Lamenta-se com as mãos mais que calejadas
Seguindo seu destino, ele consegue criar
Silenciosamente mais uma canção frustrada

*Como se o destino de um grande pianista fosse conseguir a paz

(Quarta, 17 de Outubro de 2007)

Amarelinha


por annaleticia

Terra
Um nascimento.
Dois brinquedos no Natal. Três meses de férias.
Quatro recuperações.
Cinco anos na faculdade. Seis namorados fixos.
Sete taças de vinho.
Oito viagens pelo mundo. Nove netos nascidos.
Céu

(Terça, 24 de Outubro de 2006)